terça-feira, 5 de maio de 2009

Um olhar incolor sobre o documentário Olhos Azuis

A cor é uma percepção visual provocada pela ação de um feixe de fótons sobre células especializadas da retina, que transmitem através de informação pré-processada no nervo óptico, impressões para o sistema nervoso. [1] (grifo meu).

O conceito de cor nos auxilia na compreensão da necessidade de termos um olhar incolor sobre o mundo, deixar que o outro preencha nosso olhar com suas cores.

O documentário Olhos Azuis de Jane Elliot colore nosso olhar. Sua iniciativa na década de 60, com crianças da 3ª série, originou seu trabalho desenvolvido em workshop e dinâmicas de grupo. No início, apenas um experimento incipiente em sala de aula, como muitos de nós, professores, fazemos; depois, estratégia de enfrentamento da discriminação.

Alguns pontos ainda obscuros na sociedade: preconceito, omissão, necessidade de pertencimento a uma classe, poder, vem à luz com a proposta do documentário. Despir nosso olhar é a primeira atitude a ser tomada ante ao trabalho de Elliot. Sua importância ultrapassa as discussões banais sobre o racismo, pois, através de um processo de transferência de papéis, identifica e apresenta uma ferida que se tenta esconder, o racismo.

Ao chamar “voluntários”, a professora sela um contrato passível de quebra, porém inquestionável com os participantes. A partir desta idéia de voluntariado, podemos fazer a seguinte analogia: você escolheu passar por isso, eles (discriminados) não.

O artifício utilizado pela psicóloga, dispor os grupos em níveis diferentes, facilita a marcação de estereótipos negativos ao grupo de olhos azuis. Sentar no chão é o signo da infantilidade e inferioridade. Esse ponto é elucidado por ela como estratégia social para inferiorizar os negros.

Um dos momentos altos do documentário não é o relato sobre a discriminação sofrida pelos negros do grupo de olhos castanhos, mas quando ela agride uma mulher sugerindo que ela se aproveita de sua jovialidade e beleza para ser aceita na sociedade. Neste momento, ela critica o grupo pela inércia, alegando que ninguém a defendeu. A omissão é trazida à discussão.

Mais que um belo documentário sobre o racismo, o filme apresenta questões pertinentes à construção de um Eu-cidadão, de um Eu-mais humano. Vale a pena conferir.


[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Cor.

Documentário / Alemanha/EUA, 1996 - Direção: Bertram Verhaag

3 comentários:

Beto Borges disse...

Caramba... como essa moça escreve bem... Parabéns pelo texto!!!

Um beijo do

Roberto Borges

thomasbisinger disse...

ola fernanda,

fazendo umas pesquisas na net cheguei a teu blog e me identifiquei. gostaria de fazer contato, para fortalecermos a rede.
veja meu blog: photombisinger.blogspot.com
me mande um email para trocarmos outras ideias
thomasbisinger@yahoo.com.br

com amor
thomas

Carla disse...

Ei! encontrei seu blog pesquisando exatamente sobre esse documentário. Tb achei que a parte da moça que foi acusada de "usar a beleza" - e nem foi defendida - foi bem especial.