segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A flor da batata


D. Alaíde, uma senhora com um pouco mais de 70, minha vizinha de frente. Abro o portão e lá está D. Alaíde. Convidei-a para diagnosticar meu jardim. Bem, ainda não é um Jardim mas é um projeto afetuoso. Tem estrutura de alvenaria e cinco vasos de plantas.

D. Alaíde prontamente atendeu a minha solicitação. E, lá, encurvada, revirava a terra de cada vaso. A dama da noite brotada na noite em que Maalum veio ao mundo secara. A experiente mulher decretou: esturricada! 

As espadas de Jorge e Bárbara _com licença são meus íntimos_ foram reunidas no mesmo vasilhame e receberam um bom agrado de terra preta. Já o lírio, aquele da paz, fora abafado pelo espaçoso oriri, a ele não restou terra.  “Tem que comprar”, ordena a botânica.

Senti muito pela dama da noite, presente da tia avó. Derrubei sua terra no chão e iria lavar seu vaso quando: - Não, filha! Nem tudo que parece sujeira o é. Deixe-me ver esta terra, quero a batata. D. Alaíde planta a batata com a terra da dama da noite. “Pronto, prontinho, agora é só esperar a chuva.” Chuva, veio muita, e com ela flores. Flores da batata plantada por D. Alaíde.

Ainda não pude mostrar o resultado a D. Alaíde. Nossos encontros são no desencontro do tempo. Será que terei coragem de agradecê-la não só pelas flores, mas também pela oportunidade de aprender a semear?

domingo, 30 de janeiro de 2011

Estou nesta edição da Revista da ABPN - Não Percam!!!!

Revista da ABPN - Volume 1, número 3, nov. 2010 - fev. 2011 - ISSN 2177-2770


Apresentação
Ana Flávia Magalhães Pinto, Eliane Cavalleiro e Tatiane Cosentino Rodrigues

Mulheres e homens negros são sujeitos de conhecimento, sim! Não há dúvida. Ressaltando esta feliz realidade, apresentamos o terceiro número da Revista da ABPN. Após um ano de trabalho árduo, temos motivos para comemorar e, mais do que isso, avaliar nossas conquistas e desafios para dar continuidade ao projeto.
No que diz respeito ao público e à recepção deste periódico científico, os números são animadores. Já são quase 8 mil visitas à Revista, com acessos vindos das Américas, da África e da Europa. Cada texto teve uma média de 300 acessos realizados por leitores(as) brasileiros(as) e de países como Estados Unidos, Portugal, França, México, Colômbia, Uruguai, Argentina, Moçambique, Senegal, Canadá, Espanha, entre outros.
A contribuição do público local foi decisiva. Todavia, temos que reconhecer que essa interlocução demonstrada pelos números deve muito ao diálogo estabelecido com intelectuais negros(as) de diversos pontos da Diáspora e do próprio continente africano, entre os quais se encontram aqueles(as) que nos enviaram seus textos para enriquecer e diversificar o debate.
O cenário é, pois, propício para reafirmar o compromisso da Revista da ABPN com a construção de uma crítica epistemológica da realidade e da organizaçao social do conhecimento. De tal sorte, a organização deste terceiro número buscou ampliar essa interlocução entre intelectuais da Diáspora Negra, tanto no que diz respeito às origens geográficas dos(as) autores(as) quanto às suas áreas e perspectivas analíticas.
O primeiro artigo “Territórios ancestrais afro-equatorianos: uma proposta para o exercício da autonomia territorial e dos direitos coletivos”, de Jhon Antón Sánchez, apresenta uma discussão sobre a recente experiência do povo afro-equatoriano em sua relação com o novo Estado plurinacional, tal como disposto na Constituição de 2008. Na medida em que a garantia dessa autonomia está estreitamente vinculada ao controle político dos territórios ancestrais, Sánchez ressalta os entraves históricos e as pressões econômicas que podem comprometer a implementação das novas “circunscrições territoriais” afro-equatorianas, peça-chave desse processo.
A relação entre reconhecimento de direitos coletivos à terra e garantia de autonomia é também um tema abordado por Paula Balduino de Melo. Em “Quilombos: transição da condição de escravizado à de camponês livre”, a autora desenvolve uma reflexão sobre os problemas enfrentados por indivíduos e comunidades negras rurais para se constituir como sujeitos políticos na luta por reforma agrária no Brasil.
Por sua vez, Arivaldo Santos Souza retoma o debate sobre racismo institucional no Brasil − que tem se valido, sobretudo, do conceito britânico apresentado no relatório Macpherson − e propõe um aprofundamento da discussão, a fim de que a crítica possa ir além da responsabilização das instituições e passe a encarar o sistema de crenças racistas que antecede a existência daquelas, conforme defendido no conceito original, formulado por intelectuais do movimento Black Power, nos anos 1960.
Os artigos de Jaime Amparo-Alves e Claudia Mosquera Rosero-Labbé servem, pois, para iluminar o alcance da problematização levantada por Souza. Em “Necro-política racial: a produção espacial da morte na cidade de São Paulo”, Amparo-Alves recorre a dados empíricos para demonstrar a vigência de uma dinâmica de “espacialização da morte” na maior cidade do país, marcada por uma maior incidência de óbitos decorrentes, sobretudo, de doenças evitáveis, bem como da violência homicida dirigida ao grupo populacional negro. Já Claudia Mosquera aproveita as atuais comemorações do bicentenário da Independência colombiana e coloca em xeque as limitações impostas à cidadania dos afrodescendentes no país, sem deixar de apresentar questionamentos à própria atuação dos movimentos sociais negros colombianos, no que toca as estratégias de encaminhamento das demandas estruturadas ao longo das últimas décadas.
No âmbito da historiografia, este número oferece dois artigos que compartilham o interesse pelas experiências de conflitos, ajustamentos e reelaborações socioculturais na Diáspora Africana. A partir de processos crime, jornais e textos memorialísticos, Washington Santos Nascimento desenvolve os argumentos do artigo “Depois do Treze de Maio: representações sobre ex-escravos e seus descendentes em Vitória da Conquista, Bahia (1888-1930)”. O autor chama atenção tanto para a participação dos negros no comércio escravista da região quanto para os conflitos raciais no pós-abolição. A narrativa ilumina ainda algumas trajetórias de indivíduos negros, que permitem entrever modos e estratégias estabelecidas por esses sujeitos para estar e sobreviver numa sociedade racializada e fundada na escravidão. Por seu turno, “Entre a África e o Recife: interpretações do Culto Chambá”, Valéria Gomes Costa apresenta um estudo comparativo cuja finalidade é dimensionar aproximações e distanciamentos entre as práticas culturais verificadas no Terreiro Santa Bárbara, de Nação Xambá, e aquelas reproduzidas pelos chambas, etnia habitante das regiões do Mapeo e do Yeli, localizadas nos atuais Nigéria, Camarões e Togo.
A Literatura Feminina Negra é outro assunto de destaque nesta coletânea. Miriam Alves e Francineide Santos Palmeira, a partir de diferentes perspectivas, apresentam um balanço crítico da produção literária das mulheres negras e ressaltam a importância da afirmação desse sujeito de fala negligenciado e silenciado entre os cânones da literatura nacional.
Já o último artigo tem como foco a Educação. Fernanda Santos, em “Práticas Pedagógicas nas Relações Étnico-raciais: Identidade e Memória” apresenta os resultados de sua pesquisa-ação numa turma de Educação de Jovens e Adultos, em Niterói, tendo como objetivo desenvolver e compartilhar práticas pedagógicas voltadas para a implementação da Lei n. 10.639/03.
Tal como entre os artigos, a seção de resenhas também buscou contemplar a diversidade temática de interesse da Revista. Os textos críticos dedicaram atenção às seguintes obras: Mocambos de Palmares: histórias e fontes (séc. XVI-XIX), organizado pelo historiador Flávio Gomes; A Cosmovisão africana no Brasil – elementos para uma filosofia afrodescendente, de Eduardo David de Oliveira; A África deve unir-se, do pensador e político ganense Kwame Nkrumah; e Os nove pentes d'África, de Cidinha da Silva.
Desejando a todos(as) uma boa leitura, aproveitamos para agradecer o trabalho comprometido dos membros dos Conselhos Editorial e Consultivo da Revista, bem como dos demais pareceristas, em sua decisiva contribuição para a nem sempre tranquila tarefa de análise e qualificação dos artigos submetidos. Sigamos, então, com nosso compromisso para que em 2011 seja possível continuar crescendo com a colaboração de todos e todas.

sábado, 20 de novembro de 2010

Consciência Negra em foco no SESC Teresópolis



Consciência Negra em foco

Dia 18/11
19h
Palestra Ecos da hipertensão: vivências de mulheres negras no Rio de Janeiro

Adriana Soares Sampaio – Psicóloga especialista em História da África e do Negro no Brasil e mestre em Psicologia Clínica.
Pesquisa realizada com 15 mulheres que se identificavam como negras apontaram diversos relatos de como suas vivências contribuíram para o agravo da saúde e desenvolvimento de doenças como a hipertensão.
Local: Sala de Vídeo


Dia 24/11
14h
Oficina de Tranças Afro
Oficina voltada para a transmissão de uma tradição e valorização de uma identidade.
Local: Quiosque


14h 
Oficina de Jongo
Patrimônio Imaterial, tombado pelo IPHAN em 2005, o jongo é um ritmo tradicional afro-brasileiro típico da região sudeste imerso em conceitos que valorizam a vida comunitária, respeito à ancestralidade e a natureza. Oficina específica para agendamento de escolas.
Local: Quadra


18:30h
Mesa redonda – Sustentabilidade e Relações Etnicorraciais

Composição da mesa:

Fernanda da Silva Santos, Professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira da SEE / RJ; Jorge Luiz Silveira Ribeiro, Professor de História e Sociologia da SEE / RJ e do Município de Nova Friburgo; Simone Ferreira dos Santos, Professora de Geografia e Gestora de Projetos – CIEDS; Glória Maria dos Santos Corrêa, Professora do Ensino Fundamental da SME / RJ.

Com base na aplicação da Lei 10.639 / 03 que inclui no currículo oficial a temática História e Cultura Afro-brasileira a mesa propõe o debate sobre as relações etnicorraciais em favor do alcance de um cenário sustentável, promovendo o respeito à diversidade e aos seus espaços de manifestação com a responsabilidade de contribuir para uma boa relação com o meio ambiente.
Local: Teatro20:30h 



Show Identidade
Show de encerramento da mesa redonda com o Grupo Negros & Vozes, explorando o repertório de músicas do folclore africano, sul americano, MPB e Blues norte americano
Local: Teatro 



Serviço:
  • O SESC - Teresópolis fica na Av. Delfim Moreira, 749, Várzea.
  • Eventos gratuitos.
  • Todas as atividades necessitam de inscrições prévias pelo telefone 2743-6932, pelo e-mail joycenahoum@sescrio.org.br ou pessoalmente na administração do SESC. Em caso de sobra de vagas, no dia da atividade a participação será liberada


Jinsambu uá Mukuolua-muhatu pala Nzambi

Em função do Dia dos Professores, compartilhei com vocês minha alegria em ter uma aluna premiada em um concurso de poesia promovido pela UPPES. Para minha surpresa, a alegria do momento fora indescritível.

Durante a cerimônia de entrega do troféu, ao subir ao palco e declamar a poesia premiada, a minha querida e talentosa Alecy aproveitou a oportunidade para me agradecer da forma mais honrosa e sublime: escreveu um poema para mim no idioma bantu. Como ela conseguiu produzir esse poema? Com as palavras e as expressões que apresentei nas aulas durante o projeto sobre o jongo. Além de estudarmos esta manifestação cultural, também conhecemos um pouco do universo dessa cultura, como os países que falam esse idioma, a influência dele em nossa Língua Portuguesa, os diversos dialetos que o compõe.

E garimpando palavras, selecionando emoções, escolhendo desejos ela esculpiu este MEU presente inesquecível.


Jinsambu uá mukuolua-muhatu pala Nzambi
Oração de uma guerreira para Deus

Alecy Lasse da Cruz, aluna 8 ano - EJA E.E. Dr. Memoria

Nlundi kamba (Guardião amigo)
Kubolama kamba (Ajoelha-se amigo)
Kujikula o muxima (Abri o coração)
Nzambi kubana o kukóue (Deus vai dar vitória)

Nzambi kubana nguzu (Deus vai dar força)
Kunoka dibutu (Chuva em abundância)
Kuikila kamba (Acredita amigo)
Dibanda uá makóiu (Chuva forte de benção)

Sansuka a kikóue (Viver na vitória)
Ukindi o Nzambi (Honra a Deus)
Ntonta, nguzu Nzambi (Experiência, força só em Deus)

Nguzu Nzambi (Força só em Deus)
Makóiu ni ngala (Benção e alegria)
Kubolama ni kutondela (Ajoelhar-se e agradecer)
Nzambi ikale ni enhe (Que Deus lhe acompanhe)


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Dia do Professor

Passamos em torno de quatro anos lendo, ouvindo sobre o papel social do professor, no quanto nossa atuação deve fazer a diferença e tantos outros conceitos tão fáceis de serem compreendidos nos livros especializados. Nosso coeficiente acadêmico é excelente, somos formados, informados, treinados, e muito bem treinados, nas teorias.

Em sala, a realidade nua e crua. Sim, é um lugar-comum. Pois já são mais do que conhecidas as dificuldades de se exercer a profissão, hoje. Aí, vamos tentando, acertando, errando, aprendendo.

Em 15 de outubro para alguns, é claro, acordamos ansiosos pelas felicitações, pelo reconhecimento, pelo menos por uma lembrança da data.

Desculpe-me se pareço soberba com o que vou dizer. Eu recebi minha homenagem pelo dia do professor na semana passada. No dia 20, acompanharei uma aluna ao recebimento de um prêmio por ter obtido o 2º lugar no concurso de poesia da União Dos Professores Públicos Estaduais (UPPES). Que presente, né?! Não, isso ainda é mais valoroso. A aluna ganhadora deve estar há mais de 40 anos fora da escola.

Agora, entendo toda aquela teoria aprendida sobre o fazer a diferença. Não a ensinei a escrever poemas, sequer dei-lhe um livro de poesia. Apenas acolhi sua experiência quando a trouxe para sala. Ao me mostrar seus escritos, tímida, receosa com a crítica que poderia receber, folheou um caderno com um, dois, dez, vinte, cinquenta poemas.

Acolhi, acreditei e a inscrevi no concurso. Não discriminei sua linguagem, não desprezei sua bagagem de experiências, seu conceito de belo e seu orgulho em ter produzido. Ela me deu a oportunidade de pôr em prática o que há pouco eu defendia teoricamente com tanta proprieadade em uma monografia.

E lá estarei eu, no dia da premiação, inflamada de orgulho pela oportunidade de participar da conquista de um aluno e por ter conseguido “concretamente” fazer a tão ensinada diferença.

Um lindo dia dos Professores para nós que ainda acreditamos em nosso papel.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Tem coisas que não devem ser guardadas conosco, somente.

Sabe...
a ventania sempre me fascinou. Um pouco de medo, é claro.
Eu a via como magia, poder de mover as coisas de seu lugar. Lembro-me bem dos finais da tarde de verão, quando a pancada de chuva se aproximava. Primeiro, vinha ela soberana, poderosa em sua harmonia própria, num encanto irresistível e avassalador. Uns corriam para casa, eu fechava os olhos diante da poeira da rua de terra batida e tentava atravessá-la, medindo força como se eu pudesse transpô-la.

Ela, sábia, era complacente, eu era apenas uma criança.

Hoje, neste presente tão indicativo, não me atrevo a desafiá-la. Jamais! Entretanto, estamos mais próximas, aprendi a conhecê-la. Sei que antes de chegar aquele ponto outrora lembrado, ela fora brisa, assim como eu fui menina.

No estágio da inocência somos mais solícitos, mais permissivos, mais sensíveis. E, por isso, a toda brisa que passa aproveito para pedi-la para te dizer que tenho saudades.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

GINCANA LITERÁRIA

Escreva uma narrativa para esta foto.






A vencedora Franciane foi premiada com os livros Marley e Eu e Como domar seu dragão.


Leia o texto vencedor:


Na floresta amazônica, um garoto tinha mais ou menos 14 anos, tinha amor pela caça. Então, um certo dia, ele resolveu entrar na floresta. Ele passava noite e dia em busca destes animais. Perto dali, ele acampou e resolveu entrar na floresta, então ele ouviu um barulho e foi ver o que era. No dia seguinte, ele pegou uma máquina e tirou uma foto dele com os três bichos estranhos.

sábado, 8 de maio de 2010

Agora, irei chorar!

Acabar-me em lágrimas, numa mistura de alegria e tristeza. Não pude parar para extravasar minha dor, meu sentimento de perda. O momento me exigia ação, verbo ativo e no infinitivo, não havia tempo para complementos. Fazer. Cumprir. Executar.

Agora que recebi esse grande presente, vou chorar por tudo. Demasiadamente. Purgar os maus sentimentos e me abrir aos bons. Quero chorar um choro sem igual, inconcebível, pois preciso sentir a dor em meio a gargalhadas de satisfação.

Inesquecível 07 de abril de 2010

Seria apenas um dia de chuva forte se não fosse os desejos reascendidos entre o barulho do vento e a força da água contra a janela.

A cada intensificação das gotas contra o vidro, trazia consigo a preocupação com os próximos, com os distantes e com os iguais, seres humanos, formados pelo paradoxo coragem e medo.

Nessa avalanche de sentimentos, um, em especial, ressaltava-se, querendo transpor a todos os outros maduros e racionais, compatíveis com a idade e posicionamento ideológico que se tenha. O desejo de se ter novamente 10 anos. Quando em dia de chuva ficávamos em casa, vendo a torrente através do vitrô da janela de madeira antiga, sob a proteção e o olhar atento de nossos pais.

Embora crianças, não tínhamos medo, sabíamos que papai e mamãe fariam tudo por nós. Éramos seguras, confiantes e inatingíveis. Se faltasse luz, cantávamos, brincávamos de Show de Calouros, Qual é a música... Calávamos apenas se houvesse raios e trovões em sinal de respeito. Deus estaria zangado.

O medo era passageiro pois estávamos juntos.


Hoje, cada uma em sua casa com suas vidas, com seus afazeres, o medo se apresentava insistente pois não havia a certeza da segurança, da proteção de alguém que faria tudo por nós.

Como eu queria ter passado o dia em pé sobre o sofá, olhando a chuva pelo vitrô e cantando com minha irmã, como sempre fizemos num dia comum de chuva forte.

domingo, 18 de abril de 2010

CARTA ABERTA DA E. E. Dr. Memória

"A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte."


A chuva e suas consequências, que castigaram o estado do Rio de Janeiro dias atrás, descambaram em uma tragédia de dimensões incalculáveis, deixando todos consternados. O número de vítimas fatais e de desabrigados cresce diariamente pondo a nu o estado de vulnerabilidade em que nos encontrávamos e fazendo-nos sentir como meros sobreviventes pós a passagem de um tsunami.

Como em todas as enchentes, a culpa acaba caindo sobre os ombros de São Pedro ou dos próprios mortos, pois na visão estreita das autoridades, seria absurdo concluirmos que as ruas enchem porque não há um sistema de escoamento da água da chuva (independente de sua quantidade) decente, que os deslizamentos de terra acontecem porque não há ações prévias de contenção de encostas, que o poder público poderia ter impedido a construção de casas onde antes era depósito de lixo e que as pessoas constroem suas casas em locais de risco não porque querem, mas por mera falta de alternativa diante de um cenário habitacional que privilegia a especulação imobiliária, adicionado à ausência de um sistema de transporte público barato que facilite a construção de moradias longe do centro das idades.

Nós, profissionais do ensino da Escola Estadual Dr. Memória, trabalhamos na região mais castigada dessa recente tragédia. Convivemos com centenas de pessoas que perderam suas vidas ou todos os seus bens materiais e, obviamente, não podíamos ficar alheios à dor dessas famílias e apenas esperarmos as soluções (escassas) advindas de nossos governantes. Abrimos nossa escola para os desabrigados e nos orgulhamos em saber que esse estabelecimento de ensino se tornou uma referência de solidariedade para a comunidade sofrida do Cubango, Viçoso Jardim e adjacências. Hoje, mais de duzentas pessoas dormem, comem e tomam banho em nossa escola.

Entretanto, além da solidariedade e do amparo às famílias que viram parte de suas vidas ser levada pelas águas, entendemos que esse momento também é de cobrança às autoridades competentes (especialmente ao prefeito de Niterói e ao governador do estado do Rio de Janeiro) para que solucionem rapidamente o problema dos desabrigados, possibilitando com isso que nossa escola possa voltar a exercer suas atividades normais. Não podemos permitir, em hipótese alguma, que a acomodação e o descaso do poder público transforme a E. E. Dr. Memória em um abrigo permanente.

Por isso, os profissionais dessa escola, em assembléia geral realizada n dia 14 de abril de 2010, aprovaram o encaminhamento desta carta aos órgãos públicos competentes para deixar claro que QUEREMOS VOLTAR A SER UMA ESCOLA e que queremos novamente ter a possibilidade de realizar a tarefa para a qual esse estabelecimento surgiu e se consolidou, tarefa esta também imprescindível a essa comunidade carente, que é a tarefa de "EDUCAR'.

Profissionais da Escola Estadual Dr. Memória

Rua Noronha Torrezão, 335 - Cubango - Niteroi

sábado, 24 de outubro de 2009

África em nós





Ministrarei oficina de práticas pedagógicas no dia 16/11/2009, às 14h.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

II Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa


Domingo, 20 de setembro, às 9h, no Posto 6 da praia de Copacabana, estaremos juntos mais uma vez para manifestar pacificamente o nosso desejo de liberdade! Crianças, idosos, homens e mulheres, que acreditam possível a convivência harmoniosa entre todas as crenças, estarão unidos.

A 2ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, promovida pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, é realizada em nome da democracia!

Do Posto 6 ao Leme, rumo à liberdade, religiosos e agnósticos de vários pontos do Brasil esperam por você!

domingo, 28 de junho de 2009

Resenha – O Reino do Outro Mundo

Ontem, assisti a um espetáculo belíssimo pela sua proposta e assim continuaria para mim se não trouxesse outras questões além da beleza da arte e da cultura. Trata-se de O Reino do Outro Mundo, um espetáculo contemporâneo de dança dos Orixás, da cia Rubens Barbot.


O espetáculo se propõe a uma leitura contemporânea das danças dos Orixás, optando-se por trabalhar com as várias vertentes para manter a idéia de retratar o lado mais popular. Elegeram então para o Orixá Exu a leitura mais popular na cultura brasileira. Este ponto eclodiu em questionamentos.


Quem é Exu na cultura brasileira? Preciso dizer? Basta lembrarmos das imagens à porta de lojas de artigos religiosos, das frases escritas em muros por toda a cidade do Rio de Janeiro, do que ouvimos em programas de rádio de algumas religiões cristãs. Enfim, é o mal personificado na figura do diabo.


Preocupa-me esta eleição pelo popular. De qual popular falamos? Com um pouco de história e conhecimento sobre a cultura africana saberemos quem é Exu, por isso minha preocupação com a escolha, a opção. A arte muitas das vezes assume o papel social e de formação de conceitos. Corremos o risco de perpetuar o estigma que discrimina uma parcela deste “popular”.


Èsù é uma divindade única que possui vários cognomes de acordo com os atributos referentes às suas atividades: Òjíse, o mensageiro; Elébo, o transportador de oferendas; Olóna (n), o dono dos caminhos; Akésan, o que supervisiona as atividades dos mercados do rei; Òdàrà, identificado com as coisas do bem; Elégbára, o conhecedor do poder e etc. (Beniste, 2006).


Este orixá por ser o fiscalizador universal, não pode ser aliado permanente de ninguém, deve ser livre em suas relações, por isso sincretizado com o diabo, figura a qual no cristianismo é o desobediente. Ocultaram sua essência: princípio da vida, a força que move os corpos, a dinâmica, o senhor dos caminhos e das encruzilhadas, a principal ponte entre os mortais e as divindades que habitam o além.


Aquela noite poderia ser um momento ímpar de rompimento com os conceitos impostos. Um lugar de eco da voz da história, da cultura, um resgate daquilo que nos foi negado. Ainda assim, fica a sugestão , vale pela beleza e pela intenção.


Serviço:

Estréia: 11 de junho às 20h.
Temporada: de quinta a domingo,
sempre às 20h, até 09 de agosto.

Local: Casa Alto Lapa Santa
Rua Joaquim Murtinho, 654
Santa Teresa. Tel: 2220- 5458.

Capacidade: 70 lugares

Ingresso:
R$ 20,00 (inteira)
R$ 10,00 (meia-entrada)
R$ 5,00 (promocional - válido para pré-vestibulares , escolas, ONGs, rádios comunitárias e associações comunitárias)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Quando mudei de canal...

Ontem, domingo, frio gostoso, propício pra ficarmos enroladinhos numa colchinha acalentadora, não resisti a esta atmosfera de hibernação. Fiquei por algumas horas no sofá assistindo a programas ligeiramente interessantes. Muitos sabem o quanto sou avessa a esta intrusa, por isso não possuo TV fechada. Sendo assim, pouco tempo me rouba esta manipuladora. No entanto, gosto dos programas alternativos, sobretudo, os da TV Brasil.

A preguiça era muita, confesso. Depois de trabalhar por longo período nas tarefas da pós-graduação, grudei o glúteo no “chesterfield” cinza. Quando percebi a noite estava alta e os programas escassos. Fui dar uma olhadinha em um canal famoso, quando fiquei estarrecida com o que assisti. Era o comercial da Mastercard, aquele que afirma que alguns consumos não têm preço. Um desses consumos era a aprovação no vestibular representado por uma luta, no ringue, entre um branco franzino e um negro musculoso. À frente do menino branco pilhas de livros, ao negro sobrou a força física, ou para quem sabem ler, a violência.

Eis a materialização do signo da discriminação simbólica cuja força é extrema em nossa sociedade. Na platéia, estavam os pais do pequenino torcendo pelo seu desempenho, que segundo a propaganda, obteve sucesso por méritos próprios. Os pais do negro? Não, negros na maioria possuem apenas mãe, lembra?

Os publicitários se esqueceram, acredito tratar-se de esquecimento, de apresentar a trajetória e a história dos personagens. A imagem tornou-se inverossímil quando apagaram a história que os conduziram até aquele ringue, quando silenciaram o lutador negro, coitado, que só o restou socos e pontapés para arrombar as portas da casa grande.

Compartilho a brilhante análise de Rebeca Duarte, especialista em política de cotas e membro do Observatório Negro:

Por Rebeca Oliveira Duarte*

Sempre gostei de observar os comerciais brasileiros; nada pelos produtos em si, mais pela perspectiva artística que a propaganda brasileira costumava ter. Em certos períodos, tive muitos contragostos, especialmente à época em que as cervejarias desbundaram em propagandas sexistas, mal-feitas e repetitivas, até que, felizmente, a justiça decidiu – por pressão das feministas – pôr os limites necessários à liberdade de expressão. Afinal, democracia não justifica agressão e discriminação contra mulheres; pelo contrário, requer a garantia de serem tutelados os direitos fundamentais de todos os segmentos sociais.

Bem, mas o que eu quero dizer é sobre a perspectiva artística das propagandas, e a respeito de como algumas delas marcam os telespectadores. Em Pernambuco, quem tenha mais de trinta anos não tem como não lembrar com um sorriso os jingles das Casas José Araújo, nos idos dos 1980, ou a cantiga doce de uma marca de açúcar cristal.
Mais recentemente, em nível nacional, uma dessas campanhas bem sucedidas é a da Mastercard, que associa o consumo às coisas não-consumíveis, seduzindo quem assiste geralmente pela afetividade. Pois bem. A última das versões da campanha “Não tem preço” espantou-me com um exemplar bem “sutil” do racismo brasileiro, daqueles que poucas pessoas “conseguem” perceber. Ou querem perceber.

Trata-se de um jovem franzino branco lutando no ringue com um homem negro grande e forte. Do lado do negro, a altura e os músculos; do lado do branco, a sua força está num computador, em livros e, o que quer nos levar a pensar a propaganda, pela aplicação intelectual do jovem branco. Ao final da luta, o negro desaba enquanto o jovem ergue os braços e o narrador finaliza: “passar no vestibular: não tem preço”.

Muito interessante como a propaganda descreve exatamente o pensamento comum referente ao “lugar” do negro na perspectiva racista brasileira, principalmente em relação à educação. Se de um lado o negro aparece superior fisicamente, com sua “força bruta”, muscular, o branco o supera pelo “mérito” individual da intelectualidade e, por isso mesmo, derruba o primeiro para ocupar um lugar de privilégio – a universidade. Assim é a idéia geral que povoa o imaginário brasileiro, principalmente em relação às cotas.

A propaganda da Mastercard parece ter sido escrita por aqueles intelectuais de gabinete que criticam as cotas como uma ameaça à meritocracia individual, elitista e racista; quem sabe, foi mesmo. Não duvidaria. Afinal, a igualdade racial é um preço muito caro que alguns segmentos da sociedade não querem pagar, para não terem de ver o negro e a negra se defenderem dos golpes que historicamente receberam. O medo, tão grande, desse “jovem branco franzino”, é da reação; de ver-se contra-atacado, golpeado e jogado ao chão, humilhado, assim como fez ao outro.

Mas erra quem vai nesse caminho. Em nenhum momento, a defesa das cotas quer colocar as coisas como uma luta de boxe, no qual o “vencedor” deixa o outro derrubado na lona, vencido. Pelo contrário. Queremos sim que o vestibular saia do ringue e que a universidade seja um campo democrático, sem disputa ou concorrência – tão-somente de conhecimento. E, necessariamente, da socialização deste conhecimento.

Queremos que a educação não tenha preço, nem pagantes, nem excluídos. Sem os nocautes da injustiça social e do racismo, que fazem a pessoa negra pagar sempre muito caro por sua existência. O racismo causa, inclusive, um estrago que não tem valor que compense. Só a consciência social – e essa sim, não tem preço, apesar de ser ainda tão cara em nossa sociedade.

*Rebeca Oliveira Duarte
Observatório Negro
Rua do Sossego, 253 – sala 02 – Boa Vista
Recife-PE – CEP 50.050-080
F: 00 55 81 34231627/94211435
observatorionegro@gmail.com

terça-feira, 5 de maio de 2009

Um olhar incolor sobre o documentário Olhos Azuis

A cor é uma percepção visual provocada pela ação de um feixe de fótons sobre células especializadas da retina, que transmitem através de informação pré-processada no nervo óptico, impressões para o sistema nervoso. [1] (grifo meu).

O conceito de cor nos auxilia na compreensão da necessidade de termos um olhar incolor sobre o mundo, deixar que o outro preencha nosso olhar com suas cores.

O documentário Olhos Azuis de Jane Elliot colore nosso olhar. Sua iniciativa na década de 60, com crianças da 3ª série, originou seu trabalho desenvolvido em workshop e dinâmicas de grupo. No início, apenas um experimento incipiente em sala de aula, como muitos de nós, professores, fazemos; depois, estratégia de enfrentamento da discriminação.

Alguns pontos ainda obscuros na sociedade: preconceito, omissão, necessidade de pertencimento a uma classe, poder, vem à luz com a proposta do documentário. Despir nosso olhar é a primeira atitude a ser tomada ante ao trabalho de Elliot. Sua importância ultrapassa as discussões banais sobre o racismo, pois, através de um processo de transferência de papéis, identifica e apresenta uma ferida que se tenta esconder, o racismo.

Ao chamar “voluntários”, a professora sela um contrato passível de quebra, porém inquestionável com os participantes. A partir desta idéia de voluntariado, podemos fazer a seguinte analogia: você escolheu passar por isso, eles (discriminados) não.

O artifício utilizado pela psicóloga, dispor os grupos em níveis diferentes, facilita a marcação de estereótipos negativos ao grupo de olhos azuis. Sentar no chão é o signo da infantilidade e inferioridade. Esse ponto é elucidado por ela como estratégia social para inferiorizar os negros.

Um dos momentos altos do documentário não é o relato sobre a discriminação sofrida pelos negros do grupo de olhos castanhos, mas quando ela agride uma mulher sugerindo que ela se aproveita de sua jovialidade e beleza para ser aceita na sociedade. Neste momento, ela critica o grupo pela inércia, alegando que ninguém a defendeu. A omissão é trazida à discussão.

Mais que um belo documentário sobre o racismo, o filme apresenta questões pertinentes à construção de um Eu-cidadão, de um Eu-mais humano. Vale a pena conferir.


[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Cor.

Documentário / Alemanha/EUA, 1996 - Direção: Bertram Verhaag

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Uma ode ao Eu: um momento a ser celebrado

Será que é o início de uma nova fase, como muitos falam? Tenho a sensação de que o dia nasceu igualmente como ontem. Meu cabelo é o mesmo, minha pele, minha voz, parece que tudo é como antes a não ser pelas aspirações. Entre uma atividade e outra já conhecida, aspiro o novo. Não, não me peça para ser mais exata! Não saberia definir o que é este novo. Sei apenas que o quero, que o desejo, quase o exijo da vida. Se pensei? Não. Ainda não estou no momento de olhar para trás e ponderar o ocorrido.

Faço trinta. Trinta anos!

Quero é olhar para o horizonte, planejar, sonhar, realizar, não verificar balança. Deixo isso para o futuro. Agora é hora de viver. E como isso é bom. Garota, você merece muita novidade nesta vida e em outras. Seja feliz e esteja aberta ao novo, sempre.

Te amo!

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Inicia-se 2009...

O perfume de lírio apodera-se da casa, ocupa o vazio físico e o da alma. Ela se inebria com o perfume, se sente nova para o novo. Parece que uma luz se acende, uma flor se abre. É mais um botão, esteve fechado e agora quer se abrir, se escancarar. Ela tem medo. De quê? Das flores murcharem? Um dia isso acontecerá. Deverá trocar por outras e aguardar que igualmente murchem. Enquanto elas estiverem viçosas, exalando perfume, se deleite, não deixe escapar nenhum momento bom. Viva, Dona. Seja tu a flor a desabrochar. Seja tu a exalar perfume, a inebriar. Seja teu próprio sonho.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Dos Três Mal Amados - João Cabral de Melo Neto

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato


O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço


O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome


O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas, o amor comeu metros e metros de gravatas


O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus


O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos


O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão


Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte

Conto de Natal

ESTIVA

Aproxima-se mais um navio do porto. Parece ser um dos grandes, vai ter trabalho até o Natal, diz Antônio.
Nesta época, os biscateiros aguardam a chegada de navios, na entrada do porto, com a esperança de conseguirem trabalho até o dia de Natal. Todo ano a história se repete. Hoje, apenas os 40 primeiros da fila foram recrutados, os outros irão disputar novamente um lugar no ano que vem.
Já às quatro da manhã o Del’Rei aporta para o descanso de dois meses, antes de retornar a sua viagem até a costa portuguesa. −Todos a postos, gritam em meio à confusão causada pela chegada do navio. Esse veio pesado, diz Irineu, −que bom! vai ter trabalho para esticar até o dia 24, responde Antônio.

−Vamos, prendam as correntes, amarrem as cordas, ordena o encarregado de face carrancuda e voz grosseira.

Um barulho ensurdecedor cria um ambiente particular, como se mundo não houvesse fora daquele porto. Tinha-se que ficar bem atento às ordens do encarregado, não se podia falhar, ainda havia outros no portão à espera de uma desistência ou dispensa de algum agraciado. A cor alaranjada do alvorecer invade a proteção cinza e marrom do lugar. Aqueles homens, de corações expectantes, fitavam a nau como argonautas temerosos às peripécias divinas. Em seus íntimos, a neblina densa de receio, tomara o lugar da coragem que os levaram em busca de trabalho.

Antônio era um negro descendente de família forra, morava no bairro alto do Livramento, numa rua de calçamento pé-de-moleque, em casa isolada devota à Imaculada Conceição por fora; no interior a devoção era à mãe Oxum. Formou família ainda jovem, mulher e cinco filhos. Sua esposa cuidava da cozinha de uma das famílias ilustres da sociedade carioca. A cozinheira prendada e responsável chegava cedo ao seu reino de panelas e temperos. Seus patrões a tinham em alta estima; apesar da cor e de sua posição social, costumavam interpelá-la sobre sua casa, seus filhos e sobre Antônio. Muitas vezes, com a ajuda deles, ela garantira a única refeição que sua família faria no dia.

Enquanto Antônio tentava alcançar a ceia de natal da humilde, porém, feliz família, na casa era verdadeiro alvoroço: as crianças estavam ansiosas com a proximidade do Natal, e claro, com o retorno do pai. Elas sabiam que junto com o pai também viria a melhor refeição do ano. Os pequeninos sonhavam com a mesa farta de guloseimas −mesmo sabendo que os pratos servidos não passariam dos de sempre, acompanhados da iguaria comprada especialmente para aquela noite.

Irineu, amanhã é dia 24, já consegui o suficiente para este Natal, diz Antônio. Não vai sobrar nada para comemorarmos esse bichão-navegante que nos livrou da fome, indaga Irineu. Bem... Acho que dá pra tomar uma antes de eu subir o morro, mas não posso me demorar, a patroa vai chegar cedo da casa dos grã-finos e espera o pernil que vou levar, condiciona Antônio.

O alvorecer do dia foi intensamente esperado, os marujos, os estivadores aguardavam o tão ansiado apito. Às cinco horas em ponto, os portões se abrem, e os escolhidos dentre muitos daquele ano já podem retornar às suas casas.

-Antônio! Vamos lá pro Boteco São Jorge comemorar, grita Irineu.
-Eu vou, mas já avisei que não posso demorar, salienta Antônio.

Após doses e doses de água-ardente, Antônio apanha seu pernil dourado de tão assado, que comprara ali perto, numa padaria e toma seu caminho rumo ao morro do Livramento. Deixando a rua Imperatriz, já nas calçadas da rua da Direita...

-Ei, psiu, aonde vai com tanta pressa?
-Não me amole, diz Antônio.
-Espera; não quer um se divertir um pouco? Hoje é Natal, dia de realizar desejos.
-Tenho que ir, me deixa! Que isso, dona? Mas...é tão cheirosa...
-Então, aproveita, diz a mulher.

Antônio, com mãos calejadas apalpa aquelas carnes duras e viçosas, bêbado não vê o estender da hora e já noite desperta num beco escuro. Pensa, apenas, em seguir seu caminho.
−Antônio, onde você estava? Estou te esperando desde do fim da tarde. As crianças já dormiram, a essa hora devem estar sonhando com a ceia que não tiveram, o repreende sua esposa.
-Eu bebi um pouco mais, foi só isso, diz ele.
-Cadê o pernil?
-Pernil? Eu...
-Tudo bem, meu querido, sei que fez o possível por este Natal.

Pela janela, Antônio ouvia risos e felicitações sem a certeza de onde vinham, não sabia ao certo se eram verdadeiros ou fantásticos os ruídos que invadiam seu íntimo. Debruçado, de cabeça escondida, sentia um aperto em seu coração pelo vazio que insistia em permanecer no centro da mesa. Fitando uma estrela imponente, prometera a si que no próximo ano ele seria o primeiro a chegar ao porto.
Feliz Natal e um 2009 como quiseres!!!!!

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Narrativa policial




ASSASSINATO NO BECO

Roberto Carlos
(Aluno do 1º ano do Ensino Médio da Escola E. Dr. Memória, em Niterói)


Um crime com requinte de crueldade

1
Havia em uma cidade de classe média duas gangues de jovens muito farristas, cada grupo tinha seu líder. A gangue Raio de sol com líder Barroso e os integrantes, Leandro Braço, Hermano Argentino, Tina a Patricinha e Thaca. Do outro lado da cidade, o líder da gangue Choque, Serginho, e seus companheiros Sandro, Marcão Bombado, Germano, Marcio Pegador e Pedro, essas duas gangues aterrorizavam as cidades com suas motos transformadas e seus carrões turbinados. Na delegacia o chefe de polícia Amorim já não aguentava mais tantas reclamações de moradores, donos de restaurantes e comerciantes em geral. O detetive Armando sai às ruas várias vezes por dia com seu ajudante, o investigador Peixoto, que muito enrolado não conseguia de jeito nenhum parar os arruaceiros. O chefe de polícia Amorim chama Barrosão, o pai de Barroso, até a delegacia. Ao chegar lá, Barrosão, ex- policial civil, pergunta muito intrigado: _ por que me chamou até aqui Dr. Amorim, há algum problema? O chefe respondeu: _ sim, Sr Barrosão, o seu filho e os seus colegas andam fazendo arruaça por toda cidade. O meu filho? perguntou Barrosão. Sim, respondeu o chefe, eles batem de frente com o outro grupo chamado Choque, é uma enorme pancadaria, armam o maior quebra-quebra e ameaçam os comerciantes e moradores da cidade. Por isso, convoquei o Sr a vir até à delegacia e também chamei o Sr Carlos Machado, o pai do Serginho, para que ele tome ciência dos fatos que ocorrem. Que provas o senhor tem para essas acusações tão levianas, perguntou Barrosão. O chefe de polícia respondeu: _ o morador Sr Fernando testemunhou tudo, inclusive já o chamei para esclarecer todos os fatos que vira. “Esse X-9... disse Barrosão. Convocado o pai do Serginho, Sr Carlos Machado, um respeitado empresário do ramo automobilístico. Depois de saber o que o filho anda fazendo disse: eu não acredito no que estou ouvindo hoje mesmo vou conversar com o Serginho e vou dar um fim nisto tudo antes que piore.
2
Enquanto isso, chega ao hotel da cidade um homem muito misterioso de nome Cardoso, vindo não se sabe de onde e também nada se sabe sobre a vida dele. Ele que teve uma grande discussão com Serginho, porque ao passar em frente ao hotel, teria avançado o sinal de trânsito e o atropelou, iniciando a confusão. Não houve agressão física. Kátia, uma garota de programa, presenciou tudo. Por ser pequena, cidade tudo era manchete do jornal O cidadão. O repórter Anderson saía com sua máquina fotográfica, seu bloco de papel e caneta na mão, escrevendo tudo que lhe interessava e tirando fotos de tudo, querendo registrar algo importante.
3
Aconteciam rixas muito sérias entre as gangues. Onde eles se encontravam era um quebra-pau generalizado, com casos na polícia e também entrada no hospital, agora existia um agravante. Tina, integrante da Raio de sol e namorada do líder Barroso, se apaixonara por Serginho, líder da gangue rival. Eles marcavam encontros às escondidas sem que os grupos soubessem. Mas em uma noite chuvosa, aconteceu o flagrante. Hermano, o Argentino, bateu de frente com os dois e ficou muito transtornado: _Tina que traição! E está com a outra gangue!!! Tina assumiu dizendo: _eu já estou cheia de ser controlada por vocês e o Barroso me enoja com aquele jeito marrento dele. Hermano então partiu para a briga. Serginho se defendeu e os dois rolavam no chão até que Hermano bateu a cabeça e desmaiou. Serginho então chamou uma ambulância que o levou para o hospital.
4
Lá no cafofo da gangue Raio de Sol chega a notícia completa do acontecido e Barroso fica muito irado: eu vou matar os dois pombinhos e quem mais se colocar no caminho. Leandro Braço tenta acalmar os ânimos, Barroso muito nervoso fala: _ não me encha o saco, Braço. Naquele final de semana, aconteceria a festa de casamento fora da cidade de um primo de Barroso, e ele iria para festa. Naquela sexta-feira aconteceu. Serginho marcou um encontro com Tina no chope da cidade, os dois assistiram ao filme no cinema e depois foram a um lugar mais reservado para namorar. Já na madrugada, às três da manhã, Tina falou: já é tarde vamos embora. E Serginho respondeu que a levaria em casa. Você está doido, disse ela, pairando logo depois um silêncio entre o casal. Enquanto isso, Hermano já recuperado procura Tina por toda a cidade junto com o resto da gangue. Ele ferve de raiva, o casal atravessa a cidade para o lado da gangue Raio de Sol e chegam à casa de Tina que se despede e Serginho volta para o seu lado, e antes que consiga atravessar a rua principal que divide os dois lados, acontece o encontro com a gangue rival. Serginho está acuado não sabe o que fazer, são muitos os que o cercam. Começam as agressões: chutes, socos, pauladas. Mas Serginho muito ferido consegue fugir, correndo despista os perseguidores e entra para o beco escuro e sujo. Sem ainda saber o que o esperava. No dia seguinte, já no sábado, todos procuram por Serginho que estava sumido. O pai, Sr. Carlos, vai até a delegacia e registra o sumiço de seu filho, vai também ao hospital e ao IML da cidade, mas nada encontra. O detetive Armando começa as investigações pelo chope onde o casal esteve, faz algumas perguntas. Pelas aparências descritas, chega até Tina.
5
Ela lhe confessou que ele a deixou em casa e seguiu para sua. O chefe da polícia também convocou as gangues pra deporem e descobriu que Hermano e seus comparsas teriam agredido a vítima, por isso prendeu todos para averiguação. Logo depois, chega a notícia que acharam um corpo no beco da cidade. O jornalista Anderson foi ao beco procurar algo para escrever e encontrou o corpo de Serginho e também um mendigo que ali dormia, cuja existência ninguém sabia na cidade, com um único ferimento feito a golpe de machado que ainda se encontrava cravado em seu crânio. Começam a investigação. Das duas gangues, todos depuseram, com exceção de Barroso que não estava na cidade e era o principal suspeito, mas ele tinha o forte álibi da festa de casamento. A garota de programa Kátia informou ao chefe de polícia que tinha testemunhado a confusão entre o visitante misterioso e o Serginho. Ele também foi chamado para depor. Como todos os comerciantes eram também suspeitos, depois de muita investigação e pressão por parte da família de Serginho, chegou ao detetive uma informação muito importante, que um mendigo estaria vendendo o relógio e o celular da vítima. Prenderam o mendigo e assim chegaram ao assassino que confessou o crime, alegando que o matou para roubar os pertences, aproveitando de sua fraqueza naquele momento e assim foi desvendado o mistério de um crime no beco.

(A oralidade da narrativa foi respeita nesta publicação.)